Eu confesso: adoro Bob Esponja. Raramente assisto a algum filme infantil ao lado do João pela simples tarefa de lhe fazer companhia. Gosto de quase todos os filmes que assistimos juntos, mas sinto especial apreço em assistir Bob Esponja.
Mas você deve perguntar-se o que eu, adulto e barbado, gosto no Bob Esponja? Há muita conversa por aí a respeito da pseudo-homossexualidade do ingênuo Bob e de seu amigo Patrick, o que já garantiria a curiosidade, mas o que mais me fascina na série são os personagens teóricamente adultos, Lula Molusco e Seu Siriguejo.
O mau humor de Lula e a avareza de Sirigueijo, sentimentos humanos bem menos escandalosos que a teórica homossexualidade do personagem principal, são as características mais marcantes de suas personalidades. E não é por acaso que sejam exatamente elas que os definam como os personagens adultos no filme.
Gosto especialmente de Siriguejo. Ele é avarento e ganancioso, um capitalista pronto a aproveitar a mínima oportunidade de ganhar dinheiro, mas é interessante que ele não seja multimilionário. Sirigueijo não parece ter nenhum talento aparente que o faça extremamente rico, tanto que em um dos episódios, um dos seus antigos cozinheiros reaparece multimilionário, literalmente nadando em ouro. Ele está preso a espelunca que é o seu restaurante porque é apenas ali que ele pode explorar a vida sem perspectiva de Lula Molusco e a ingenuidade de Bob.
Sirigueijo é um desses atravessadores da vida real, gente com nenhuma habilidade especial que nasceu para “terceirizar” serviços e explorar e predar o próximo.
A grande lição no sub-texto — sempre há alguma — é que avareza e ganância, afinal, não tornam ninguém rico.
Há dois meses mudamos de casa. Vida nova em casa nova e bairro novo. Até eu absorver um pouco a essência desse lugar demorará um pouco, algo natural. Mas até eu ir me encaixando nos modos e manias desse novo bairro e das pessoas que por aqui moram, primeiro vou me deixando levar pela estranheza.
A primeira que salta aos olhos é a quantidade de salões de beleza que existe por metro quadrado no bairro. Na rua que dá acesso ao nosso prédio há dois, e um ao lado do outro. Na rua do prédio da avó do João há mais três. Nas ruas paralelas mais três. Arrisco dizer que em todo o bairro exista talvez de 20 a 25 salões de beleza.
Em contraste, há apenas três bancas de jornal nesse mesmo amontado de ruas.
Os cínicos dirão que a preocupação com o que vai em cima da cabeça é maior do que com o que vai dentro. Um economista dirá que esse número é apenas o resultado do subemprego galopante no subúrbio.
Ao menos Platão, aquele mesmo, o filósofo grego, estaria ao lado de quem freqüenta os salões: para ele todo homem (e mulher) deveria aspirar ser digno e, principalmente, ser belo.
Em um curto espaço de menos de um mês eu vi o cantor “Seu Jorge” três vezes.
A primeira foi no Parque da Água Branca aqui em São Paulo. Seu Jorge estava com a sua família e eu com a minha. Enquanto eu fotografava o nosso filho brincando com alguns pombos, seu Jorge estourava biribinhas para a sua filha. Ele parecia relaxado, moleque, absorto naquelas pequenas traquinagens diante da filha.
A segunda vez que eu vi Seu Jorge foi na Band, enquanto ele dirigia-se para os estúdios das rádios. Ele carregava apenas o seu violão e parecia, pela maneira vacilante como andava e pelos olhos enormes e curiosos, intimidado e deslocado até a raiz da alma, acompanhado de alguém que parecia guiá-lo em direção aos estúdios.
A terceira vez que vi Seu Jorge não foi pessoalmente, mas na TV, em uma entrevista para o Jô Soares. Depois de uma leve e bem humorada acomodação, Seu Jorge começou a discursar sobre o fato de hoje lidar bem com o seu “complexo de inferioridade”. Naquele momento, inconscientemente, eu mudei de canal em busca de algum noticiário de fim de noite.
O que eu desejava inconscientemente, hoje eu percebo, é preservar as duas primeiras impressões que ficaram de Seu Jorge na minha retina, principalmente a segunda. Foi nela que eu intui que Seu Jorge é dos poucos cantores hoje no Brasil que podem verdadeiramente ser chamado de artista no sentido óbvio do sujeito que produz ARTE genuina e que não tem a mínima intimidade com o Show Business, o meio pelo qual a arte deveria ser “promovida.”
Seu Jorge, antes de ser artista, já foi borracheiro, faxineiro, vendedor e pedreiro. Mas é quando ele canta e ouve-se o timbre de sua voz que percebe-se que aquele sujeito não nasceu para nada que não fosse exatamente aquilo, cantar.
Obviamente você já deve ter ouvido, ou lido, alguém discursar sobre o sentido etimológico da palavra “vocação”, que em um sentido grosseiro quer dizer “chamamento”. Seu Jorge é a exata medida que há no sentido profundo da palavra vocação. Nada, nem ninguém, jamais poderiam desviá-lo dessa rota e do caminho de se tornar o grande artista que ele é hoje.
Há duas semanas nos preparávamos para levar o João ao cinema pela segunda vez. Há momentos, tenho que reconhecer, que a minha expectativa diante de algum evento é muito maior que a do próprio João e esse foi um caso típico. Já havíamos, apenas nós dois, ido ver Bee Movie e a experiência foi ótima, com ele atento e conectado o tempo todo ao filme.
Eu havia imaginado que os quase 40 minutos sem diálogo de Wall-E — o novo longa metragem da Pixar — fosse prender o João na cadeira pela quantidade de linguagem não verbal que há nesses 40 minutos iniciais, onde o pequenino Wall-E contracena com a sua amiga barata, percorre quilômetros e quilômetros de áreas desertas e se apaixona por Eva, um lindo e I-Phonico robô explorador. O resultado, no entanto, foi radicalmente o oposto. O João jamais pareceu estabelecer uma conexão com o filme, nem física, por conta dos momentos de ação, nem emocional, por conta da paixão que Wall-E alimenta por Eva ou pela amizade com a sua barata.
Eu, obviamente, me vi fascinado pelo filme, mesmo que a mensagem ambientalmente correta, tão em evidência hoje, tenha me incomodado um pouco.
Para os mais cultos e preocupados com signos que sustentem culturalmente o filme, há claras referências ao poema “The Waste Land” de T.S. Elliot. Em lindas e amplas tomadas aéreas da terra é possível se vislumbrar o que seria “a terra devastada” nos versos de Elliot, uma desolação de lixo e objetos empilhados, restos de uma civilização consumista e hedonista, sendo limpos e organizados pelo pequenino e incansável Wall-E, dia após dia.
Wall-E, tem programado em si uma espécie de inteligência humanóide, sofisticada a ponto de, como os humanos, ver-se também fascinado por objetos e coisas, a ponto de guardá-los ordenadamente dentro de sua casa, um enorme basculante.
Há signos para todos os gostos e para quem ama cinema, há também referências cinematográficas, como a “2001, uma odisséia no espaço”, Jornada nas Estrelas e o incrível design visual dos robôs que por si só já valem a experiência cinematográfica.
Essa minha primitiva crítica cinematográfica, elogiosa até, obviamente não livra o filme da impiedosa crítica do convidado de honra da noite. O João achou o filme, simplesmente, chato. Quis ir ao banheiro em duas ocasiões, mudou-se de lugar várias vezes: da sua cadeira para o meu colo do meu colo para o colo da mãe e assim por diante e não teve vergonha de pedir duas vezes para ir embora para “minha casa”.
Sua inquietação pareceu arrefecer apenas nos minutos finais do filme, mas mesmo assim resolvemos atender ao seu pedido ir embora mais cedo, perdendo os lindos créditos finais, que contavam o futuro da terra, do ponto em que o filme acaba, em inúmeras técnicas de animação.
Talvez Kung Fu Panda, um filme que pelo trailer pareceu ter um humor fisicamente mais escrachado e menos intelectualizado que Wall-E, seja mais indicado ao nosso exigente crítico infantil de 3 anos de idade.
Domingo, recebemos a visita da “Tia Li” (Tia Liliane), do “Chio Lins” (Tio Lins) e do primo Enzo. Com o apartamento novo, e com os brinquedos espalhados sobre o tapete da sala, o João parecia muito excitado para mostrar e compartilhar a sua casa nova.
Com a Tia Li no quarto trocando as fraldas do pequeno Enzo, o João correu com a sua caixa de brinquedos para mostrar à Tia Li o que havia dentro da caixa:
“Tia Li, olha o que eu trazi”. Olha o que eu trizi.”
Foram duas tentativas à procura da forma correta do verbo TRAZER no pretérito, e ainda assim na última eu senti que ele ficou insatisfeito com o resultado.
O verbo TRAZER é um daqueles verbos irregulares da língua e o João se viu na situação comum das crianças de sua idade que estão no processo de aquisição da linguagem. A conjugação dos verbos, como no caso de comprar/comprei, andar/andei, são processos lingüísticos automáticos que se chocam com a estrutura imprevisível do verbo irregular: trazer/trouxe.
Googlerizando o tema um pouquinho mais, descobri através do psicólogo evolucionista Steven Pinker (milagrosamente, eu consegui ler o calhamaço “Como a mente funciona”) que há histórias interessantes a respeito dos verbos irregulares.
Uma dessas histórias diz que “eles são fósseis lingüísticos, restos de palavrório de tribos pré-históricas presentes na Europa e no sudeste da Ásia. A linguagem dessas tribos utilizava conjugações verbais que usavam regras que regularmente substituíam uma vogal por outra. Mas à medida que os hábitos de pronúncia mudavam em seus descendentes, essas regras tornavam-se mais opacas para as crianças e acabavam morrendo.”
No caso do João a dificuldade ficou evidente, mas o que me deixou feliz é que ele de alguma maneira já internalizou a formação irregular do verbo por tê-lo ouvido no burburinho das conversas ao seu redor. E o seu esforço na procura da forma correta é prova de como ele tentou ser exato no que dizia à Tia Li.
A evolução da capacidade lingüística do João é algo ao qual eu tenho uma fascinação particular. Perceber que ele além de adorar usar os plurais de maneira precisa também esforça-se para ser exato, me dá um enorme prazer e satisfação — além do que esse lento aprendizado da língua é um pequeno laboratório para se entender como a raça humana adquiriu esta maravilhosa ferramenta chamada linguagem.

Há mais ou menos uma semana atrás, enquanto estávamos na PBKids comprando mais um carrinho/personagem do filme Carros para o João, me chamou a atenção uma esfera verde e laranja no balcão. A Esfera tinha reentrâncias em seu interior, além de uma série de hastes internas conectadas de maneira muito precisa. Ao pegá-la e arremessá-la ao alto, me surpreendi ao notar que as hastes se movem de maneira a girar as superfícies da esfera para dentro substituindo-as por outras que estavam no interior da esfera.
Para evitar dar um nó no cérebro lendo essa pobre explicação literal, clique aqui.
A verdade é que eu fiquei extremamente fascinado com essa esfera, chamada switch pitch. Tão fascinado que não me contive e em um daqueles impulsos consumistas comprei-a no ato.
A minha fascinação pelo brinquedo é que à primeira vista ele parece uma criativa mistura de um objeto de arte moderna e equação matemática, fascinação que obviamente ainda não está acessível ao João. O movimento de todo o mecanismo que permite que você o vire do avesso assemelha-se muito a construção de um objeto fractal.
Em uma pesquisa rápida e superficial na internet, eu descobri que o Switch Pitch é uma criação de um Designer chamado Chuck Hoberman, e que suas criações, chamadas de Design Transformável, tanto podem ser úteis para calibrar radares que estudam a ionosfera, como também para criar objetos artesanais e brinquedos inofensivos.
O João num primeiro segundo adorou pela surpresa que o brinquedo representa, mas o brinquedo não reteve a sua atenção intermitente por muito tempo, pois no fundo a sua interação com ele resume-se a arremessá-lo para o alto ou mesmo com as mãos virar-lhe literalmente do avesso.
O Switch Pitch custa R$ 15,00 na PBKids. Não será educativo para o filho de ninguém em um primeiro momento, mas você, pai ou mãe, ao mínimo ficará dias fascinado e imaginando o quanto um brinquedo inofensivo pode conter de conhecimento e matemática em sua estrutura.
— Originalmente escrita em 14 de Abril de 2008
Algo que eu me recordo claramente da época em que eu era criança, era a capacidade que eu tinha de me maravilhar com os não-acontecimentos a minha volta: o fechar das folhas de certa espécie de planta que eu tocava, a chuva no telhado de minha casa, o distante barulho do mar quando eu ia chegando a praia com a minha mãe.
À medida que você cresce e vai adentrando ao cotidiano ordinário da vida adulta, as contas, as obrigações e o seu CPF vão se sobrepondo a essa existência mais simples e sensorial da vida. Você nem percebe, mas acabou de fazer parte da ferocidade do cotidiano urbano. Assim, sem aviso, sem curso preparatório.
Em poucos momentos da vida você terá novamente a chance de regredir a essa felicidade simples da infância. Um desses raros momentos é quando você tem um filho.
A tendência óbvia é acharmos que somos os seus guias em direção a essa burocracia, esse tédio das contas, das obrigações e do ramerrão do dia-a-dia ordinário. No fundo, são essas pequeninas criaturas que nos guiam de volta a esse passado simples de sensações que se foram.
Nossos filhos tocam as gotículas de chuva na janela do carro, exercitam uma palavra nova inúmeras vezes, descobrem um bicho novo, fazem perguntas que beiram o surrealismo poético: “a lua chorou, papai?”
É quando os observamos nesse processo de apreensão do mundo, que percebemos o quanto ficamos cegos para a beleza óbvia de coisas que, apesar de sempre estarem ali, as esquecemos gradualmente ao longo da vida.
Os documentos empilhados, o irrecuperável tempo perdido entre o ir e vir para casa, as horas contadas sentado em frente ao computador, o bravo raio de sol que entra por uma fresta ou outra no escritório, isso tudo não é a vida real.
No fundo, a vida que vale a pena é essa, a vivida entre o que se vê e o que se percebe de imediato. Só um filho para nos transportar de volta a ingênua felicidade da infância, só um flho…

Já comecei dois BLOGS anteriormente e é sempre difícil encontrar uma razão plausível e lógica para se explicar por que se escreve. No caso do “ORDINARIUM” a razão veio muito antes da vontade de escrever.
Em verdade, tenho uma memória terrível e é fácil perder-me nela enquanto rememoro fatos isolados. Por isso acho que anotar, refletir e escrever sobre o meu filho e nosso cotidiano ordinário e, principalmente, sobre o processo que é o seu crescimento, é uma boa maneira de deixar viva, para mim mesmo, a impressão de cada momento importante que passamos juntos. Além do que é uma boa oportunidade de sistematizar e ajudar a refletir o sentido da paternidade em si.
Um dia, espero, talvez seja importante para ele também.