Crônica dos três anos do João

— Originalmente escrita em 14 de Abril de 2008

Algo que eu me recordo claramente da época em que eu era criança, era a capacidade que eu tinha de me maravilhar com os não-acontecimentos à minha volta: o fechar das folhas de certa espécie de planta que eu tocava, a chuva no telhado de minha casa, o distante barulho do mar quando eu ia chegando a praia com a minha mãe.

À medida que você cresce e vai adentrando ao cotidiano ordinário da vida adulta, as contas, as obrigações e o seu CPF vão se sobrepondo a essa existência mais simples e sensorial da vida. Você nem percebe, mas acabou de fazer parte da ferocidade urbana. Assim, sem aviso, sem curso preparatório.

Em poucos momentos da vida você terá novamente a chance de regredir a essa felicidade simples da infância. Um desses raros momentos é quando você tem um filho.

A tendência óbvia é acharmos que somos os seus guias em direção a essa burocracia, esse tédio das contas, das obrigações e do ramerrão do dia-a-dia ordinário. No fundo, são essas pequeninas criaturas que nos guiam de volta a esse passado simples de sensações que se foram.

Nossos filhos tocam as gotículas de chuva na janela do carro, exercitam uma palavra nova inúmeras vezes, descobrem um bicho novo, fazem perguntas que beiram o surrealismo poético: “a lua chorou, papai?”

É quando os observamos nesse processo de apreensão do mundo, que percebemos o quanto ficamos cegos para a beleza óbvia de coisas que, apesar de sempre estarem ali, as esquecemos gradualmente ao longo da vida.

Os documentos empilhados, o irrecuperável tempo perdido entre o ir e vir para casa, as horas contadas sentado em frente ao computador, o bravo raio de sol que entra por uma fresta ou outra no escritório, isso tudo não é a vida real.

No fundo, a vida que vale a pena é essa, a vivida entre o que se vê e o que se percebe de imediato. Só um filho para nos transportar de volta a ingênua felicidade da infância, só um flho…

Um comentário sobre “Crônica dos três anos do João

  1. Becken,

    Belo texto. Eu já sabia que você escreve muito bem, mas não conhecia seu lado pai.

    Eu tenho 3 filhos, com 13, 8 e 2 anos. Os primeiros eu curti bem menos. Trabalhava muito, chegava tarde em casa, nos finais de semana estava morto de cansado.

    Com a mais nova, Clarinha, eu tenho tido mais tempo de ve-la ao natural, falando aquelas coisas que nos deixa verdadeiramente encantados e fazendo tudo o que dá na telha, com toda a pureza e intrepidez que só elas, as crianças, tem.

    Daqui a alguns anos ela vai estar maior, e será como a Gabriela e o Fernando. Claro que maiores nos dão grandes prazeres, mas de uma forma totalmente diferente. Sai um pouco da pureza e entra a curiosidade e o companheirismo.

    Quem sabe Clarinha não ganha um irmão quando estiver um pouco mais velha ????risos

    Um forte abraço,

    Sirlan Pedrosa

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