Wall-E…

Há duas semanas nos preparávamos para levar o João ao cinema pela segunda vez. Há momentos, tenho que reconhecer, que a minha expectativa diante de algum evento é muito maior que a do próprio João e esse foi um caso típico. Já havíamos, apenas nós dois, ido ver Bee Movie e a experiência foi ótima, com ele atento e conectado o tempo todo ao filme.

Eu havia imaginado que os quase 40 minutos sem diálogo de Wall-E — o novo longa metragem da Pixar — fosse prender o João na cadeira pela quantidade de linguagem não verbal que há nesses 40 minutos iniciais, onde o pequenino Wall-E contracena com a sua amiga barata, percorre quilômetros e quilômetros de áreas desertas e se apaixona por Eva, um lindo e I-Phonico robô explorador. O resultado, no entanto, foi radicalmente o oposto. O João jamais pareceu estabelecer uma conexão com o filme, nem física, por conta dos momentos de ação, nem emocional, por conta da paixão que Wall-E alimenta por Eva ou pela amizade com a sua barata.

Eu, obviamente, me vi fascinado pelo filme, mesmo que a mensagem ambientalmente correta, tão em evidência hoje, tenha me incomodado um pouco.

Para os mais cultos e preocupados com signos que sustentem culturalmente o filme, há claras referências ao poema “The Waste Land” de T.S. Elliot. Em lindas e amplas tomadas aéreas da terra é possível se vislumbrar o que seria “a terra devastada” nos versos de Elliot, uma desolação de lixo e objetos empilhados, restos de uma civilização consumista e hedonista, sendo limpos e organizados pelo pequenino e incansável Wall-E, dia após dia.

Wall-E, tem programado em si uma espécie de inteligência humanóide, sofisticada a ponto de, como os humanos, ver-se também fascinado por objetos e coisas, a ponto de guardá-los ordenadamente dentro de sua casa, um enorme basculante.

Há signos para todos os gostos e para quem ama cinema, há também referências cinematográficas, como a “2001, uma odisséia no espaço”, Jornada nas Estrelas e o incrível design visual dos robôs que por si só já valem a experiência cinematográfica.

Essa minha primitiva crítica cinematográfica, elogiosa até, obviamente não livra o filme da impiedosa crítica do convidado de honra da noite. O João achou o filme, simplesmente, chato. Quis ir ao banheiro em duas ocasiões, mudou-se de lugar várias vezes: da sua cadeira para o meu colo do meu colo para o colo da mãe e assim por diante e não teve vergonha de pedir duas vezes para ir embora para “minha casa”.

Sua inquietação pareceu arrefecer apenas nos minutos finais do filme, mas mesmo assim resolvemos atender ao seu pedido ir embora mais cedo, perdendo os lindos créditos finais, que contavam o futuro da terra, do ponto em que o filme acaba, em inúmeras técnicas de animação.

Talvez Kung Fu Panda, um filme que pelo trailer pareceu ter um humor fisicamente mais escrachado e menos intelectualizado que Wall-E, seja mais indicado ao nosso exigente crítico infantil de 3 anos de idade.

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