Brinquedos e lealdade

Algo que me surpreende no Brasil é a falta de uma crítica de cinema especializada em filmes infantis. Há críticos com viés político ou especializado em “blockbusters”, mas é missão impossível achar alguém que escreva algo mais denso sobre o aparentemente despretensioso cinema infantil.

É uma pena. Há muitos aspectos de Toy Story 3 — o novo filme da Pixar que vi sábado passado como meu filho — que eu desejava entender sob uma perspectiva crítica especializada e escrita em português.

Um dos motes a se explorar entre zilhões dentro do filme, por exemplo, é o fato de o filme ter sido tocante especialmente para muitos homens que acompanharam seus filhos ao cinema nos Estados Unidos.

Jornais reportaram que marmanjos debulharam-se em lágrimas ao ver Andy — o garoto dono de Buzz e Woody — dar um adeus definitivo às suas reminiscências de infância corporificadas nos brinquedos doados a uma creche. O ato — junto com sua ida ao college — seria um definitivo e firme passo no mundo dos homens…

Meu filho, adorou a superfície do filme. Como deveria ser, ele amou o humor físico, a visualidade agora mais humana e profunda que dos dois primeiros filmes, além das “gags” mais simples destinadas a uma criança de 5 anos. Tudo isso cumpriu muito bem seu papel.

Já em uma camada mais profunda, pode se dizer que Toy Story 3 seja realmente sobre a definitiva e melancólica perda da infância e recomeços — daí a lacrimosa digressão masculina. Mas o que mais me tocou foi o tema da lealdade que também perpassa todo o filme.

Woody se recusa a abandonar o crescido Andy, mas se remói ao ver que sua escolha em voltar para seu dono deixou seus antigos companheiros a mercê do “fofo” vilão Lotso.

Uma cena, especificamente, ilustra isso muito bem.

Depois de lutarem bravamente para escapar de uma monstruosa fornalha incineradora no depósito de lixo da cidade, os brinquedos vêm-se vencidos e rendem-se. Em último gesto de companheirismo dão-se as mãos em apoio mútuo diante do iminente e inevitável fim que se aproxima.

A cena me comoveu por talvez me dar um flash do tormento dos judeus levados para a morte coletiva nas câmaras de gás na segunda guerra mundial.

Lembro que eu e o João esperamos quase duas horas para ver a sessão de Toy Story 3 em um shopping e no momento de comprarmos os ingressos, quase tentei convencê-lo que ‘Shrek para Sempre’ era a melhor opção.

A palavra final sobre qual filme iríamos ver foi dele e ele nunca esteve tão certo…

2 comentários sobre “Brinquedos e lealdade

  1. Parece ser um filme interessante. Não tive tempo de assisti-lo no cinema, mas vou comprá-lo quando sair em DVD. Eu e minha esposa não temos filhos, mas adoramos esse tipo de filme.😛

    Quanto ao fato de não termos críticos do gênero no país, é bem verdade. Eis um bom campo para ser explorado, aliás.

    Abraços!

  2. Eu e minha esposa não temos filhos, mas adoramos esse tipo de filme.

    Não se acanhe em admitir. Eu e a Patrícia íamos ao cinema ver filmes da Pixar muito antes do nosso filho nascer… 😉

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s