A cena mais profunda da história do cinema.

Eu nunca gostei de Muhammad Ali. Muito menos de Will Smith. Sempre achei Smith por demais ‘físico’ para a delicadeza camaleônica que se exige de um ator, enquanto Ali sempre foi um falastrão arrogante para o meu excesso pessoal de discrição.

Tudo isto até ‘Ali,’ o filme de Michael Mann com Smith.

Foi preciso a união desses dois para, ironicamente, surgir a mais profunda interpretação de exílio que eu já vi ou li.

Ao fim desta corrida errante pelas ruas de Kinshasa, Muhammad provavelmente se dá conta de sua condição de exilado.

Ele jamais estará em casa nesta cidade africana – onde ele estava para lutar com George Foreman. A única relação que ele partilha com estes homens que o seguem é a cor da pele. Nada mais.

Por mais irônico e doloroso que seja, é com os brancos que o oprimem lá longe na América que Ali divide verdadeiros laços culturais, como a língua que falam, por exemplo.

Assim como todos os exilados — voluntários ou involuntários — Muhammad está condenado a viver, para sempre, em um limbo: não se reconhece mais de onde veio; jamais conhecerá aonde vive.

Este limbo, que é o exílio, é um tema recorrente para mim — um refugiado voluntário em São Paulo — e sobre o qual venho coletando citações ao longo do tempo.

O escritor Edward Said tem uma em tom ensaístico que li em uma folheada no livro “Reflexões sobre o Exílio” que jamais a esqueci:

“O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada.

E, embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heroicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor mutiladora da separação.

As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre.

— Edward Said em ‘Reflexões sobre o Exílio’”

A citação de Said me tocou na mesma proporção que um poema de Luiz Ruffato tratando do mesmo tema:

“Onde quer que estejas, em teu país
ou em outro, és estrangeiro: ninguém
tua língua compreende.
Só, o deserto
de estranhas veredas percorres.
Conservas, no entanto, dos primeiros anos
o albor, quando tua cidade, madrasta e mãe,
teus sonhos na noite fresca velava.
A grande mão que afagou-te esmaga o peito agora.
Ah! Somos apenas o que somos. Apenas.”

— Luiz Ruffato

Ruffato provavelmente vai mais fundo, sugerindo nossa condição íntima e psquíca de exilado neste mundão, mas é tocante que o poema comunique o mesma sentimento da linguagem usualmente afetada e acadêmica do ensaio.

Ainda assim, nada é tão sinteticamente pungente e visceral quanto este exílio de Cassius Clay, transmitido na cena do filme de Mann.

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POST ESCRIPTUM

Pequena edição pra adicionar mais uma observação sobre o exílio encontrada ontem e que, para minha agradável surpresa, veio de um fotógrafo, o japonês Daido Moriyama, que fazia um documentário sobre sua cidade natal, Tono:

“For people like me, who don’t have a ‘home town’ to return to, who run after their dream of a ‘home town’, behaving like a spoiled child in spite of being old enough to know better, the idea of a ‘home town’ is a swollen utopia of countless childhood memory fragments. It’s something like the ‘original landscape’. I have to say that I was helplessly obsessed with Tono being the embodiment of my ‘home town’ dream – a place that existed only in my imagination.”

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Quando Leonardo di Caprio encontra Richard Dawkins

Vi até agora 40 minutos de “Inception,” ou a Origem, como resolveram ridiculamente chamá-lo aqui no Brasil. Até agora tudo bem, tudo muito inteligível.

Estou esperando o filme enrolar-se, como uma cebola, em seus sonhos múltiplos, mas a única ideia que ele me “inceptou” na cabeça foi a referência ao conceito de “meme”, cunhado por Richard Dawkins no distante 1976 através do clássico Gene Egoísta.

A “ideia” de que uma “ideia” — uma meme — é um parasita resiliente faz eco com o conceito geral da meme: uma unidade de informação transmitida de mente a mente através das leis gerais da evolução e adaptação concebidas por Charles Darwin.

Eu li o livro há muito tempo e a primeira reação foi vasculhar o Google para ver se alguém não captou a mesma referência. Há 1.040 resultados para a associação dos termos Dawkins+Caprio — o que demonstra a minha pouca originalidade como assimilador de signos pop.

Adorei o fim aberto do filme, mas de tudo, adorei Cobb/Caprio no submundo, sonhando as memórias felizes com sua família, uma sugestão de que o realismo mágico dos sonhos é infinitamente mais atraente que nossa vã realidade…

 

Vendo ‘Enrolandos’ da Disney

Eu e o João vimos Enrolados da Disney na semana passada. Apesar do filme estar arrebentando nas bilheterias, há sempre o temor de que a Disney tempere seus filmes estrelados por heroínas com kitschs “princesismos”, mas o Enrolados tem a mão firme do CEO da Pixar, John Lasseter, guiando a produção.

Com Lasseter no comando, é garantido que tenhamos a aventura radical e o humor físico necessários à testosterona dos garotos, assim também como o romantismo e a beleza necessários à sensibilidade das meninas.

Para quem acompanha com atenção a produção de Pixar e Disney em paralelo, é fácil notar como Lasseter reforçou e modernizou os valores da Disney — tradição caramelizada com “Encanto e Magia” — sem fazê-la competir com a Pixar, que se mantém inovadora, moderna e desafiadora em seus projetos.

O filme é bom, uma clara evolução de Chicken Little e a Família do Futuro, filmes em que a Disney parecia mais “encantada” com a recém adotada animação 100% digital do que comprometida com um roteiro conciso e inteligente.

Há até uma pequena subversão a la Dreamworks: o modelo do Príncipe Encantado da versão clássica de Rapunzel é transformado em um malandrinho com consciência.

Se você for ver no Cinema, veja em 3D. A cena das lanternas abaixo, vista em três dimensões, é uma das mais belas que eu vi em filmes de animação nos últimos tempos.

‘Person of the Year’ para Mark Zuckerberg

Alguém tinha dúvida? O tradicional “Person of the Year” da TIME Magazine ficou mesmo com Mark Zuckerberg: o menino que conectou mais de 500 milhões de pessoas ao redor do mundo, redefiniu os conceito de privacidade e interconectividade e ainda foi, de lambuja, personagem de um belo filme.

O filme é bom, talvez permeado de certo maniqueísmo e bem esquemático quando tenta explicar as motivações de Mark, mas ainda assim é o melhor retrato desta novíssima geração 2.0 (você, eu, nós?)

Esqueçam a intenção dos autores em transformar Zuckerberg em um vilão tecnosoft, um clichê que sempre recai nos miliardários ligados ao mundo geek — como Bill Gates, Sergey Brin ou até mesmo Steve Jobs. Mas o mais bacana mesmo no filme é entender o quanto o moleque é determinado, focado, eficiente e leal a sua proposta de transformar o site em algo apenas “cool”…

Ele nunca se rende a intenção de seu sócio mor, o magoado Eduardo Saverin, em capitalizar o seu site a cada 100 mil usuários.

Assistam o filme e leiam a matéria da TIME. Vale a pena!

TIME: http://bit.ly/fIJcE8

Nesta longa Estrada da vida

Vi ontem, em DVD, o pós apocaliptico “A Estrada”. É um filmaço: a versão “in motion” do homônimo romance do escritor americano Cormac Mccarthy. O super escritor americano narra a jornada de Viggo Mortensen, um pai que guia seu filho (Kodi Smit-McPhee) através de uma dantesca e devastada América.

Claro que, imediatamente, me tocou ver a determinação do pai na luta pela sobrevivência do garoto ou mesmo o cuidado com sua higiene — cuidados ordinários sob responsabilidade de qualquer pai.

Sua existência é permeada pela constante paranóia de ver-se caçado pelos canibais em que se transformaram os sobreviventes da hecatombe que vagam famintos pelo “agreste” e desolado cenário do filme. Em um certo momento é tênue a diferença entre ele e os “bad guys” dos quais foge.

Apenas uma digressão pseudo-literária metida a besta, mas é curioso falar em “agreste” porque em nenhum momento descobrimos os nomes de pai, filho e mãe — a mãe que os abandonou e rumou só para o sul. Isto me lembra que no “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, alguns personagens também são anônimos: O Menino Mais Velho e o Menino Mais Novo.

Será que Cormac Mccarthy leu Graciliano? Duvido…

É um grande filme e, como pai, me comoveu ver a extrema ingenuidade de um garoto de 10 anos que cresceu sem as benesses de uma civilização — assim como alguns outros no Nordeste ou nos confins da India.

A cena em que doente o pai chora em face dos últimos momentos na companhia do garoto é emocionalmente excruciante.

Sou péssimo e sem muita imaginação para metáforas ou analogias, mas uma a se destacar entre muitas ali é que o filme no fundo trata da dura Estrada que é levar a vida adiante com filhos. Por mais que imponha-se barreiras, é uma batalha cotidiana protegê-los deste mundo devorador e  cada vez mais devastado.

Brinquedos e lealdade

Algo que me surpreende no Brasil é a falta de uma crítica de cinema especializada em filmes infantis. Há críticos com viés político ou especializado em “blockbusters”, mas é missão impossível achar alguém que escreva algo mais denso sobre o aparentemente despretensioso cinema infantil.

É uma pena. Há muitos aspectos de Toy Story 3 — o novo filme da Pixar que vi sábado passado como meu filho — que eu desejava entender sob uma perspectiva crítica especializada e escrita em português.

Um dos motes a se explorar entre zilhões dentro do filme, por exemplo, é o fato de o filme ter sido tocante especialmente para muitos homens que acompanharam seus filhos ao cinema nos Estados Unidos.

Jornais reportaram que marmanjos debulharam-se em lágrimas ao ver Andy — o garoto dono de Buzz e Woody — dar um adeus definitivo às suas reminiscências de infância corporificadas nos brinquedos doados a uma creche. O ato — junto com sua ida ao college — seria um definitivo e firme passo no mundo dos homens…

Meu filho, adorou a superfície do filme. Como deveria ser, ele amou o humor físico, a visualidade agora mais humana e profunda que dos dois primeiros filmes, além das “gags” mais simples destinadas a uma criança de 5 anos. Tudo isso cumpriu muito bem seu papel.

Já em uma camada mais profunda, pode se dizer que Toy Story 3 seja realmente sobre a definitiva e melancólica perda da infância e recomeços — daí a lacrimosa digressão masculina. Mas o que mais me tocou foi o tema da lealdade que também perpassa todo o filme.

Woody se recusa a abandonar o crescido Andy, mas se remói ao ver que sua escolha em voltar para seu dono deixou seus antigos companheiros a mercê do “fofo” vilão Lotso.

Uma cena, especificamente, ilustra isso muito bem.

Depois de lutarem bravamente para escapar de uma monstruosa fornalha incineradora no depósito de lixo da cidade, os brinquedos vêm-se vencidos e rendem-se. Em último gesto de companheirismo dão-se as mãos em apoio mútuo diante do iminente e inevitável fim que se aproxima.

A cena me comoveu por talvez me dar um flash do tormento dos judeus levados para a morte coletiva nas câmaras de gás na segunda guerra mundial.

Lembro que eu e o João esperamos quase duas horas para ver a sessão de Toy Story 3 em um shopping e no momento de comprarmos os ingressos, quase tentei convencê-lo que ‘Shrek para Sempre’ era a melhor opção.

A palavra final sobre qual filme iríamos ver foi dele e ele nunca esteve tão certo…

Seu sirigueijo

Eu confesso: adoro Bob Esponja. Raramente assisto a algum filme infantil ao lado do João pela simples tarefa de lhe fazer companhia. Gosto de quase todos os filmes que assistimos juntos, mas sinto especial apreço em assistir Bob Esponja.

Mas você deve perguntar-se o que eu, adulto e barbado, gosto no Bob Esponja? Há muita conversa por aí a respeito da pseudo-homossexualidade do ingênuo Bob e de seu amigo Patrick, o que já garantiria a curiosidade, mas o que mais me fascina na série são os personagens teóricamente adultos, Lula Molusco e Seu Siriguejo.

O mau humor de Lula e a avareza de Sirigueijo, sentimentos humanos bem menos escandalosos que a teórica homossexualidade do personagem principal, são as características mais marcantes de suas personalidades. E não é por acaso que sejam exatamente elas que os definam como os personagens adultos no filme.

Gosto especialmente de Siriguejo. Ele é avarento e ganancioso, um capitalista pronto a aproveitar a mínima oportunidade de ganhar dinheiro, mas é interessante que ele não seja multimilionário. Sirigueijo não parece ter nenhum talento aparente que o faça extremamente rico, tanto que em um dos episódios, um dos seus antigos cozinheiros reaparece multimilionário, literalmente nadando em ouro. Enquanto isso, Siriguejo está preso à espelunca que é o seu restaurante porque é apenas ali que ele pode explorar a vida sem perspectiva de Lula Molusco e a ingenuidade de Bob.

Sirigueijo é um desses atravessadores da vida real, gente com nenhuma habilidade especial que nasceu para “terceirizar” serviços e explorar e predar o próximo.

A grande lição no sub-texto — sempre há alguma — é que avareza e ganância, afinal, não tornam ninguém rico.