Nossa Marca

Nossa Marca

Eu gostei. Na verdade, eu amei. Muita gente torceu o nariz procurando respingos de plágio no trabalho da Tátil Design, mas foi em vão.

A Marca (com M maiúsculo, mesmo!) das Olimpíadas aqui do Rio, tem tudo no lugar. Pode até se admitir que os três ícones de “mãos dadas” seja um clichê usado e abusado, mas foi a aplicação com propriedade desse símbolo universal no projeto da Tátil que fez a diferença.

Afora a obviedade gráfica do relevo do Pão de açúcar na silhueta da marca, tá tudo elegantemente integradinho ali: a nossa identidade e cultura através das cores; a beleza do Rio; a cordialidade natural do brasileiro e do carioca, e por aí vai…

Tudo bem conjuminado com balanço, ritmo e movimento — valores implícitos de qualquer marca que se pretende representar os jogos olímpicos.

Adicione a tudo isto a qualidade tridimensional, então temos aí uma marca moderníssima, e até inovadora para os padrões olímpicos, que atende à necessidade de imersão visual buscada pelas transmissões em 3D.

Há dois outros elementos simbólicos que eu adicionaria ao caldeirão conceitual. A primeira seria o valor do design brasileiro. Queiram ou não, temos um estilo leve de fazer design por aqui e a marca representa isto muito bem.

Outro aspecto — talvez de valor nacional — está no encontro da marca com as palavras de nosso arquiteto mor, Oscar Niemeyer:

“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, na mulher preferida, nas nuvens do céu, nas ondas do mar. De curvas é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein.”

— Oscar Niemeyer

Poesia de arquiteto, mas que sintetiza bem o belo trabalho da Tátil Design, agora também orgulho nacional.

MAKING OF DA MARCA

Engenho e Arte

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Dizem que um dos maiores projetistas da F1, o genial Adrian Newey, ficou emputecido com este vídeo acima. Graças a uma simples filmagem amadora, os detalhes do intrincado assoalho do seu poderoso carro de F1 ficaram aparentes para cópia.

Não há direitos autorais na F1, daí a compreensível birra de Newey, mas à parte o debate sobre espionagem, há algo de extremamente tocante neste vídeo.

Há uma comovente reverência à máquina, um mix de fascinação juvenil e veneração religiosa explicito na forma como as pessoas a circundam e tocam. É uma adoração que vi apenas diante de obras de artes consagradas, como da Capela Sistina ou do Pensador de Rodin.

Isto me levou — obviamente — a outra digressão, que é quanto o valor da tecnologia como obra de arte no mundo de hoje.

Depois da imortalização da lata de Sopas Campbel por Andy Warhol, somos todos artistas, o que significa que o pós-modernismo de Warhol talvez tenha banalizado o valor da manufatura e da técnica, diluindo no processo o apelo sagrado da arte.

Hoje, a arte é alcançável, mas a sofisticação da alta engenharia, não.

Isto é curioso por que o homem responsável pela maior empresa de tecnologia do mundo, Steve Jobs da Apple, acredita piamente que as inovações mais duradouras são frutos de um casamento harmônico entre ciência e arte, exatas e humanidades.

Lembro bem da epifania que tive ao ter um iPad nas mãos pela primeira vez. Era quase inconcebível que apenas aquela tela plana e diminuta pudesse condensar tanto conteúdo e tantas… obras de arte em seu interior.

Teria a tecnologia tomado o lugar da arte como expressão do que de mais profundo e sagrado produz o homem? Não sei, mas a adoração e culto daqueles homens àquela maquina produzida pelo grande artista que é Adrian Newey, é o mais próximo que se pode chegar da veneração que se observa por museus mundo afora.

Talvez eu tenha ido longe demais em minha digressão, e a fronteira entre arte e tecnologia continue indivisível, mas não é mera obra do acaso que Adrian Newey tenha nascido em Stratford upon Avon, a mesma cidade de William Shakespeare.