Steve Jobs — a biografia

Steve Jobs era um grande filho da puta. Manipulador, tirano, brutal no trato com empregados, sádico e sem empatia. Era capaz de demitir toda uma divisão da Apple em uma convenção.

Ao menos é esta a impressão que você tem ao ler as primeiras 100 páginas de sua espetacular biografia escrita por Walter Isaacson.

À medida que você avança em sua história, no entanto, mais camadas de sua complexa e intensa persona vêm à tona e do meio para o fim do livro você já está comovido com a inevitabilidade de sua morte.

Há muitos detalhes sobre sua total falta de tato com o próximo, além de um amplo retrato das cataclísmicas revoluções e inovações feitas por ele na indústria da informática — que desdobraram-se em outras revoluções. Mas são os pequenos fatos de sua vida cotidiana que temperam e dão vívido sabor ao livro.

Por exemplo: Jobs chorava muito quando jovem. Decisões capitais, ou mesmo fatos irrelevantes como a decisão de qual número de crachá na Apple ele ostentaria — se número 1 (que acabou ficando mesmo com Wozniak. Ele ficou com o número zero) ou 2 — eram seguidos de intensa briga e posterior choro, com ele debulhando-se em lágrimas.

Ou: Jobs tinha uma tendência a tomar decisões ou fechar negócios enquanto fazia longas caminhadas com seu interlocutor em Palo Alto, nos quarteirões em torno de sua casa.

Mas o mais fascinante em todo o livro foi descobrir que a procura de Jobs por simplicidade e minimalismo nos produtos da Apple era, no fundo, uma extensão muito arraigada de sua personalidade: suas refeições, seus gostos estéticos, sua casa, tudo a sua volta era permeado de simplicidade e destituido de qualquer ostentação.

Talvez seja esta a grande lição que me fica do livro: Jobs sabia através desta simplicidade que as coisas levam a seus opostos; Que o prazer vinha da moderação e que grandes colheitas podem vir de lugares áridos.

É um grande livro sobre um homem admirável.

Facebook vs Blog pessoal

Dias atrás eu li o comentário de um desses gurus da blogosfera chamado Nick Denton preconizando o fim da blogosfera como ela foi rascunhada anos atrás. No Brasil, provavelmente, a blogosfera jamais existiu como pensada no seu início lá fora – um bastião da liberdade de escrita e opinião, e meio alternativo ao jornalismo pasteurizado e sob o cabresto da indústria da informação.

Lembro-me bem que no auge do hype, blogar era uma febre visceral e viciante, e quem tinha o seu espacinho mundano nos recantos da internet adorava pontificar sobre tudo e todos.

Ninguém percebe isto, mas o Facebook é hoje o que de mais próximo se pode ter do que fora, em seu auge, os blogs.

Atados a nossos contatos, temos uma grande diversidade de opinião e, ás vezes, sofisticados e interessantes comentários a respeito de um vasto repertório de acontecimentos, fatos, idiossincrasias e bobagens.

O trágico e o maravilhoso para mim: postar nonsenses e interagir no Facebook me desviou do prazer de um dia escrever e ‘ordenar’ meu próprio conteúdo, no meu próprio blog.

À parte isso, devo confessar que a leitura diária de comentários estimula à reflexão e surgem comentários como este, sobre o prazer de ser corintiano:

O Futpédia da Globo tem um número estatístico curioso a respeito do confronto São Paulo e Corinthians no Morumbi que é interessante como observação histórica.

Foram 103 jogos dentro do estádio do São Paulo, com 31 vitórias para o Corinthians, 26 para o São Paulo e 46 empates.

O Curíntia marcou 115 gols no São Paulo e tomou 113.

O link:

http://futpedia.globo.com/confronto/corinthians-x-sao-paulo#/anoInicio=1933/anoFim=2011/campeonato=-1/agregador=-1/estadio=282

 Moral da história: não adianta ter a posse de um grande estádio se não se faz valer sua pretensa vantagem jogando dentro de sua PRÓPRIA casa.

 Sobre a história do Corinthians, há uma história que todo corintiano deveria se orgulhar: na início da década de 80, quando este país estava sob a ditadura militar, o Corinthians estampava nas suas Camisas “Diretas Já” ou “”Eu quero votar para Presidente”.

 Este protesto era extensão de um movimento interno, famoso até, chamado “Democracia Corintiana”.

Provavelmente nenhum clube no Brasil transcendeu sua posição de simples clube de futebol para se envolver, ‘diretamente’, na história de seu próprio país.

O Corinthians fez isto e talvez só tenha feito isto por que tem o poder da grande massa ao seu lado.

Quantas Libertadores o Corinthians tem? Niente, mas há mais motivos para se orgulhar de ser corintiano do que ter uma Libertadores ou Campeonatos Mundiais.

Descontada a incontida paixão corintiana, a reflexão valeu na medida que foi uma reação ao conteúdo gerado por um dos meus contatos no ‘Face’.

No Brasil a blogosfera é natimorta, dado o fato de que já nasceu refém e infestada pelos mesmos “big shots” da indústria midiática tupiniquim, profissionais do ramo com os mesmos vícios e interesses trazidos da velha mídia estabelecida.

A tragédia: provavelmente muito conteúdo bom e reflexões interessantes estarão lacrados, dentro do universo particular que é o Facebook.

1984…

A Motorola resolveu comprar briga com a Apple no emergente e concorrido mercado de tablets. Impossível saber até onde um “gadget” de oitocentas doletas, como é o novíssimo Xoom, terá fôlego para competir com o sistema OS de Steve Jobs e com todo o “gramur” em torno do cultuado tablet da Apple.

Mas o que eu sei é que ao menos a agência da Motorola teve culhões para criar um anúncio cheio de referências culturais cruzadas.

Os caras da Weber Shandwick criaram um anúncio que faz referência ao já icônico comercial da própria Apple de 1984 (ano do lançamento do primeiro Macintosh), que por sua vez já fazia referência ao libelo anti totalitarismo “1984” de George Orwel.

Em meio a uma multidão de Zumbis, um garoto lê “1984” no seu Xoom — uma tentativa meio subliminar de “desalienar” o potencial consumidor de tablets, dizendo: “há opções na prateleira, meu filho!”

O mais curioso é que a ideia de dar liberdade e opção ao consumidor, implícita no anúncio da Motorola, é uma alfinetada na paranóia de Steve Jobs com os mecanismos de segurança do iPad, onde, formalmente, não se pode ter acesso à pornografia ou a mídias sem procedência.

Não sei até onde vai a luta de foices dos tablets, mas ao menos na publicidade a briga promete gerar boas peças.

 

127 horas

Ontem vi “127 hours”. É bom filme com bela edição e atuação soberba do menino James Franco, mas até aí ser indicado ao Oscar, hummmm…

Ok, admito que transformar o atroz e doloroso confinamento de Aron, preso em uma minúscula fenda no meio de um deserto em um filme de quase duas horas, é tarefa para diretor “bão” — exatamente como o Boyle.

Os flashbacks existenciais são primorosos e achei absolutamente criativa a transliteração — do livro para o cinema — da exaustão física e emocional do personagem. Ainda assim fique com a sensação de que, pela indicação ao Oscar, o filme ficou devendo.

127 foi o terceiro dos 10 indicados que vi até agora. Minha maratona continua nos próximos dias com o super indicado “The King´s Speech.”

TRAILER DE 127 HORAS

Bairro novo

Há dois meses mudamos de casa. Vida nova em casa nova e bairro novo. Até eu absorver um pouco  a essência desse lugar demorará um pouco, algo natural. Mas até eu ir me encaixando nos modos e manias desse novo bairro e das pessoas que por aqui moram, primeiro vou me deixando levar pela estranheza.

A primeira que salta aos olhos é a quantidade de salões de beleza que existe por metro quadrado no bairro. Na rua que dá acesso ao nosso prédio há dois, e um ao lado do outro.  Na rua do prédio da avó do João há mais três. Nas ruas paralelas mais três. Arrisco dizer que em todo o bairro exista talvez de 20 a 25 salões de beleza.

Em contraste, há apenas três bancas de jornal nesse mesmo amontado de ruas.

Os cínicos dirão que a preocupação com o que vai em cima da cabeça é maior do que com o que vai dentro. Um economista dirá que esse número é apenas o resultado do subemprego galopante no subúrbio.

Ao menos Platão, aquele mesmo, o filósofo grego,  estaria  ao lado de quem freqüenta os salões: para ele todo homem (e mulher) deveria aspirar ser digno e, principalmente, ser belo.

Início…

Já comecei dois BLOGS anteriormente e é sempre difícil encontrar uma razão plausível e lógica para se explicar por que se escreve. No caso do “ORDINARIUM” a razão veio muito antes da vontade de escrever.

Em verdade, tenho uma memória terrível e é fácil perder-me nela enquanto rememoro fatos isolados. Por isso acho que anotar, refletir e escrever sobre o meu filho e nosso cotidiano ordinário e, principalmente, sobre o processo que é o seu crescimento, é uma boa maneira de deixar viva, para mim mesmo, a impressão de cada momento importante que passamos juntos. Além do que é uma boa oportunidade de sistematizar e ajudar a refletir o sentido da paternidade em si.

Um dia, espero, talvez seja importante para ele também.